Tempos Modernos - Charles Chaplin  escrito em terça 23 setembro 2008 01:31

Tempos Modernos e o fordismo

 

Análise do Filme "Tempos Modernos" (Modern Times), de Charles Chaplin (1936)

  

O termo fordismo se generalizou na linguagem sociológica a partir da concepção de Antonio Gramsci (em “Americanismo e fordismo”), que o utiliza para caracterizar os sistemas de produção e gestão empregado por Henry Ford em sua fábrica, a Ford Motor Co., em Highland Park, Detroit, em 1913. O fordismo é uma forma de racionalização da produção capitalista baseado em inovações técnicas e organizacionais que se articulam tendo em vista a produção e o consumo em massa

 

Em Tempos Modernos, Chaplin nos apresenta um tipo de fordismo incompleto tendo em vista que a produção de mercadorias é de massa, mas não se constituiu ainda uma implicação de consumo de massa, o que ocorreria apenas no pós-guerra nos principais paises capitalistas, sob pressão do movimento sindical e político de classe (o compromisso fordista, como diria David Harvey).

 

O fordismo de Tempos Modernos é apresentado como inovação técnica e organizacional da produção e do processo de trabalho. Ele se caracteriza como prática de gestão na qual se observa a radical separação entre concepção e execução, baseando-se no trabalho fragmentando e simplificado, com ciclos operatórios muito curtos, requerendo pouco tempo para formação e treinamento dos trabalhadores (o que permite, deste modo, a integração na produção capitalista de operários de massa e pessoas simples da plebe, sem grande formação educacional, como é o caso do the tramp, personagem clássico de Charles Chaplin).

 

O processo de produção fordista fundamenta-se na linha de montagem acoplada à esteira rolante que evita o deslocamento dos trabalhadores e mantém um fluxo contínuo e progressivo das peças e partes, permitindo a redução dos tempos mortos, e, portanto, da porosidade. Esta é a impressão magistral que Chaplin nos apresenta em Tempos Modernos, pois o grande personagem do filme, ao lado de Carlitos, na cena da fábrica, é o sistema de máquina, a esteira rolante que impõe seu ritmo, ditado pelo capitalista, aos demais operários-massa. Em várias cenas, a maquina adquire vida própria. E o trabalho, como atividade vital, transforma-se, para os operários-massa desta produção fordista, em atividade repetitiva, parcelada e monótona, com sua velocidade e ritmo estabelecidos independentemente do trabalhador, que o executa através de uma disciplina rígida. No fordismo o trabalhador perde suas qualificações, as quais são incorporadas à máquina. Na verdade, essa é uma determinação material da grande indústria, segundo Marx. O fordismo é a assunção plena (e vulgar) da grande indústria tratada por Marx em O Capital, em 1867.

 

 

 

 

Nas primeiras cena de Tempos Modernos, Charles Chaplin nos apresenta os principais elementos da fábrica fordista-taylorista. Através de imagens, ele faz a anatomia da lógica fordista-taylorista, da produção em massa, tanto em sua objetividade, quanto em sua subjetividade. Aparecem as imensas instalações fabris (a grande indústria) e uma massa de operários entrando na fábrica que, através de um recurso metafórico, é comparada com um rebanho de ovelhas – no meio delas, uma ovelha negra (em A Greve, de 1926, Serguei Eisenstein utilizou o mesmo recurso metafórico para identificar, por exemplo, operários em greve com bois indo para um matadouro). O que Chaplin sugere é a idéia do operário-massa, que tanto caracterizou a produção fordista-taylorista (o próprio Frederick Taylor considerava o “operário-bovino” como aquele mais adequado para exercer as tarefas parcelares, repetitivas e monótonas da produção capitalista).

 

 

 

Depois, prosseguindo em sua anatomia da produção capitalista, Chaplin nos apresenta as formas de controle do capital sobre a força de trabalho. O capitalista exerce controle total sobre a produção capitalista através do comando da velocidade da esteira automática, acionada pelo capataz, a partir das suas ordens dadas através de uma tela imensa. É um controle virtual que atinge o operário não apenas na linha de produção, mas inclusive nos locais de privacidade no interior da fábrica, tal como o banheiro, onde o industrial worker esperava encontrar um espaço para si e não para o capital. A idéia do controle capitalista através da tela midiática está sugerida também em Metrópolis, de Fritz Lang (de 1926).

 

É claro que, nesse momento, Tempos Modernos aparece como uma curiosa ficção-científica, pois as fábricas fordistas da década de 1930 não utilizavam telas imensas para o controle operário. O futurismo de Chaplin quer apenas nos sugerir que o controle do capitalista no locus da produção de mercadoria é totalizador. E, além disso, é um controle midiático (o que iria se disseminar apenas no capitalismo tardio com as novas tecnologias da informação e comunicação, o que demonstra o caráter visionário da “ficção-científica” de Charles Chaplin).

 

 

 

Entretanto, o controle capitalista que ocorre através da linha de montagem, a esteira automática, e as telas imensas que existem na fábrica, não podem ser consideradas absolutas. O que iremos verificar é que o surto nervoso do industrial worker aparece como uma dimensão da sua subjetividade insubmissa diante do controle do capitalista (nem o capitalista controla a disposição intima do industrial worker, nem o próprio Chaplin, como persona do capital, consegue controlar a si mesmo).

 

Em Tempos Modernos, os operários são apenas apêndices do sistema de máquinas, uma mera engrenagem, representada na cena clássica do operário sendo engolido pela máquina. É a dimensão da objetividade estranhada e fetichizada, pois a máquina, ou mais propriamente, o sistema de máquina, é a própria representação do fetiche que se impõe sob o comando do capitalista como persona do capital.

 

O sistema de máquinas possui, como mediação hierárquica, o capataz, homem musculoso e de força física, em contraste com os demais operários da linha de montagem. É ele quem executa as ordens do capitalista no local de trabalho, acionando o controle de velocidade do sistema de máquinas (a exposição do capataz como homem de músculos sugere que o exercício do controle capitalista na produção não pode prescindir da força física, não apenas para manejar as alavancas do sistema de máquinas, mas para se impor sobre os operários-massa).

 

Além do capataz, aparece a secretária, mulher jovem, agente das mediações complexas do controle capitalista e também objeto de desejo (é ela que é perseguida pelo industrial workers em surto nervoso, atraído pelos botões traseiros do seu vestido). Os músculos do capataz e os botões traseiros da secretária são signos do desejo na corporalidade viva do controle capitalista. O que Chaplin sugere é que, a lógica de controle capitalista, não deixa de se apropriar das dimensões do desejo.

 

 

 

Uma persona do capital que merece uma análise particular é o capitalista. É o único que tem voz – literalmente, apesar de ser um filme mudo (numa época em que Hollywood já utiliza do cinema sonoro), os únicos sons de Tempos Modernos provém do lócus de poder do capital e de suas personas midiáticas: a voz do capitalista, o locutor do rádio (a mídia como persona do capital?) e a voz de Chaplin quando canta a música nonsense (nesse caso, o industrial worker não deixa de ser uma persona do capital, pois é pólo antagônico reflexivo da relação-capital).

 

Em primeiro lugar, Chaplin nos apresenta o cotidiano do capitalista. Ele aparece em sua tipicidade parasitária, montando quebra-cabeças, lendo jornal e digerindo um comprimido de medicamento para alguma disfunção orgânica: stress? úlcerá gástrica?. Talvez Chaplin esteja sugerindo que o capitalista deve estar preocupado com a crise. Não nos esqueçamos que o cenário de Tempos Modernos é o da Grande Depressão. Na verdade, ele é vítima da concorrência intercapitalista (mais tarde, a fábrica irá aparecer fechada).

 

Em seguida, o capitalista em sua sala de comando, atende um vendedor, trabalhador de classe média, que aparece deslocado de sua função profissional por uma máquina automática. Chaplin sugere que a máquina que caracteriza a modernidade capitalista irá atingir a função do vendedor, tornando-o, tal como o operário da linha de montagem, um mero apêndice da máquina.

 

O vendedor e seus auxiliares técnicos, apenas conduzem as máquinas: primeiro, um dispositivo automático de áudio que reproduz a apresentação de uma nova invenção, capaz de reduzir os tempos mortos na produção de mercadorias: a sopeira automática. É a máquina que faz a apresentação de venda da máquina. Se a produção de máquinas através de máquinas irá representar uma importante revolução técnica, a venda de máquinas através de máquinas deverá indicar uma nova revolução técnica no interior da grande indústria. O que Chaplin sugere é a revolução das vendas, o que ocorreu com o fordismo como modo de desenvolvimento capitalista, onde a produção em massa que ocorre através de máquinas exigiu a venda e um arcabouço complexo de propaganda e marketing, através de máquinas automáticas, capazes de criar uma nova demanda para os produtos capitalistas.

 

Após sua apresentação da sopeira automática, o vendedor e seus técnicos a conduzem para uma demonstração no local de produção. Escolhem o industrial worker para ser a cobaia da nova invenção. É um momento de perda do controle, pois a sopeira automática não consegue cumprir à contento sua função. O que Chaplin sugere é que as personas do capital, sejam o capitalista e seus auxiliares diretos e indiretos – incluindo profissionais de venda e inventores e cientistas à serviço do capital – e inclusive o industrial worker, estão imersos numa incontrolabilidade intrínseca ao sistema do capital.

 

O capital busca, é claro, automatizar todas as funções vitais da força de trabalho, inclusive aquelas que, como o tempo de lanche, são considerados pelo capital como tempos mortos. O fracasso da sopeira automática é o fracasso da tentativa de “colonizar” a hora do lanche, automatiznado o gesto natural da alimentação (o que o capitalismo tardio conseguiu fazer com o fast-food, uma inovação fordista da alimentação operária).

 

 

 

Quanto ao industrial workers, seu surto nervoso pode ser apreendido como forma subjetiva de resistência à lógica maquinal do capital. É a forma como o anti-herói problemático pode se expressar numa situação-limite, diante da máquina e das tarefas parcelizadas e sem conteúdo da produção fordista. É o protesto incontrolável da disposição subjetiva do operário contra o ritmo monótono e repetitivo da linha de montagem. Na verdade, o surto nervoso ocorre após um “dia de cão”: primeiro, a intensificação do ritmo da esteira automática (numa situação de crise, o capitalista busca extrair o maior quantum de mais-valia possível – é o que se constata após a ordem do capitalista ao capataz para aumentar o ritmo da máquina); nesse dia, o capitalista usa o industrial worker como cobaia de uma experiência fracassada de reduzir os tempos mortos (mais uma tentativa de extrair mais-valia da força de trabalho). Além disso, o industrial worker não consegue um momento de dispersão no banheiro, pois o capitalista o persegue. Enfim, o surto nervoso é a disrupção de um limite subjetivo que um personagem particular, o industrial worker, possuía de suportar a exploração intensa do capital.

 

Ora, apenas o industrial worker teve o surto nervoso, pois a doença do trabalho vivo é uma disposição psíquica particular-concreta que irrompe apenas em determinadas personalidade típicas com biografia determinada. Ela se expressou daquela forma (o surto nervoso) e não de outra forma, pois o surto nervoso possui algumas características peculiares. Ele se expressa através do despertar do desejo. O industrial workers executa quase um balé desvairado ao lado da linha de montagem, inclusive se apropriando do próprio sistema de máquinas para escapar de seus perseguidores: seus próprios companheiros operários (o que sugere mais uma brilhante interversão).

 

A seguir, o industrial worker, alucinado pelo surto nervoso, persegue os botões traseiros da secretária e mais adiante, os botões exuberantes do vestido de uma transeunte casual. Em seu surto nervoso, Chaplin quase ensaia uma dança livre do desejo que irrompe no local de controle do capital. Ora, não é apenas o capital que se apropria do desejo. Agora, o industrial workers, sob surto nervoso, busca se apropriar dos signos diruptivos do desejo.

 

Além disso, ao entrar em surto nervoso, Chaplin expressa atitudes anti-hierarquicas (ao jogar óleo no capitalista) e quase heróicas (quase no estilo de Errol Flyn, do espadachim que enfrenta os “piratas” do capital). Um detalhe: ao jogar óleo no capitalista, Chaplin parece estar sugerindo que eles todos – capitalistas, operários, policiais – são “engrenagens” do sistema de máquinas que precisam ser lubrificadas. Seu gesto expõe a forma/conteúdo das personas estranhadas do capital.

 

Como já salientamos acima, em Tempos Modernos, não sabemos o que produzem os operários da fábrica fordista. Eles apenas manipulam suas ferramentas parcelizadas nos postos de trabalho prescritos, ao lado da esteira mecânica. Talvez Chaplin esteja sugerindo a dimensão do trabalho abstrato, o único que produz mais-valia, e cuja forma concreta é indiferente. Para o capital não interessa o trabalho concreto, mas só o trabalho abstrato. O trabalho abstrato, sem conteúdo, é o objeto de repúdio do personagem de Chaplin, que se insurge, de forma inconsciente, contra a modernidade capitalista (o tema da insurgência contra o trabalho fordista-taylorista, tanto em sua forma, quanto em seu conteúdo, foi tratado por René Clair em A Nous La Liberte, de 1931).

 

No modo de produção capitalista, o valor de troca se impõe sobre o valor de uso. A natureza abstrata do produto apenas expõe sua negação, no sentido dialético, pelo valor de troca e valor. Sua subsunção às determinações do capital como sujeito automático de auto-valorização. Mais adiante, é contra o valor de troca que o industrial worker irá se insurgir (a cena da expropriação no self-service e na Loja de Departamentos, quando ele e a garota se apropriam dos produtos, desprezando seu caráter de mercadoria).

 

Mas o surto nervoso do industrial worker no local de trabalho é uma insurgência contingente contra o trabalho fordista-taylorista em vários sentidos. Não apenas porque é não-consciente, no sentido de expressar uma consciência de classe necessária, mas porque é individual, o que significa que encontra os limites estruturais da insurgência heróica do individuo contra o sistema do capital. Um individuo solitário não pode triunfar na sua luta contra a alienação.

 

É importante salientar que o fordismo que observamos em Tempos Modernos é mais um modelo de produção em massa, que um modo de desenvolvimento, o que só tenderia a ocorrer após a II Guerra Mundial. O que significa que Tempos Modernos é um filme de transição, de um período histórico do fordismo incompleto, ainda não constituído como modo de vida; o que só ocorreria mais tarde, a partir das lutas de classes e do sindicalismo organizados e dos acordos coletivos (em Tempos Modernos, estão postos alguns elementos que irão constitituir, mais tarde, o compromisso fordista – a ação coletiva dos operários, com passeatas e greves de massa). Como iremos destacar adiante, é a garota, mulher proletária, excluida da produção, quem prefigura os anseios fordistas.

 

Deste modo, a saída vislumbrada pelo industrial worker em Tempos Modernos parece ser meramente individual, como demonstra a cena final, onde Chaplin, diante do desalento da garota, enfatiza a crença no amor e na esperança. Essa sugestão de Chaplin pode demonstrar tanto os limites trágicos da consciência contingente do industrial workers, quanto sua percepção de que a outra saída, a proteção do Estado social e sua máquina burocrática, seria tão somente mais uma disposição de controle do capital. O industrial workers pode estar sugerindo que a verdadeira felicidade, e não nos esqueçamos que Tempos Modernos, como observa o próprio Chaplin, trata da busca da felicidade, significa ir além do capital, ou seja, ir além tanto do capital privado, quanto do Estado político como exterioridades estranhadas. Implicaria um novo sócio-metabolismo baseado na autonomia plena dos produtores auto-organizados (como diria Marx)

 

Como destacamos, a transgressão do industrial worker assume formas contingente (e derivativas), que expõem a sua não-adaptação à lógica da produção de mercadorias. Se num primeiro momento, a transgressão contingente aparece como surto nervoso, no decorrer do filme ela aparece nas atitudes desastradas que nos fazem rir. Mas, nesse caso, o riso é expressão da sua tragédia. É ao ser desastrado, e portanto, exercer sua comicidade, que Chaplin explicita a conservação do núcleo humano na resistência individual contra a lógica do capital. É através da sua comicidade trágica que ele consegue ir além da vida privada de homens médios, enquadrados e passivos.

 

 

 

Por exemplo, mais tarde, o industrial worker consegue voltar à fábrica como ajudante de manutenção de máquinas. Ele não volta para a linha de produção, talvez devido a seu histórico clínico de surto nervoso. Mas, mesmo na tarefa de auxiliar de manutenção, Chaplin encontra-se diante do sistema de máquinas que aparece como expressão suprema do estranhamento, como coisa viva, um fetiche que se impõe. Nesta cena clássica, ao lado do industrial worker, está um velho operário de manutenção que apenas cuida da limpeza e manutenção do sistema de máquinas, e que talvez, no passado pré-fordista, tenha sido um artesão metalúrgico.

 

Na verdade, Chaplin e o operário de manutenção são expressões de duas gerações de operários metalúrgicos. O interessante é que, nesse caso, é o industrial worker de Chaplin que envolve o velho operário em sua tragédia moderna. A atitude desastrada do industrial worker, envolvendo o velho operário de manutenção, é a singela expressão do estranhamento diante do sistema de máquinas e de si próprio.

 

Um detalhe da cena desastrada entre Chaplin e o velho operário é aquela em que o torno mecânico esmaga o relógio do velho operário. Chaplin contribuiu de modo involuntário para que o velho operário perdesse seu relógio, herança de família. Nesse caso, a cena pode possuir várias significações: seria a destruição da tradição artesanal e do savoir-faire dos artesãos metalúrgicos pelo sistema de máquinas e poderia ser, por outro lado, expressão da rebeldia do trabalho estranhado. Ao deixar o sistema de máquina esmagar o relógio do velho operário, Chaplin cometia um gesto de insurgência contingente contra o capital, prefigurado, em Tempos Modernos, na figura do relógio.

 

Mais adiante, o próprio Chaplin iria contribuir, ainda de forma involutária, para que o velho operário ficasse preso nas engrenagens do sistema de máquina. Desta vez não é ele que é deglutido pelo sistema de máquinas como ocorreu antes, mas é o velho operário, responsável pela manutenção do sistema de máquinas.

 

Tempos Modernos é um filme onde homens e mulheres proletários são engolidos pelo sistema de máquina, seja na fábrica, seja na sociedade. Por exemplo, o Estado político, que controla os proletários despossuidos, seriam formas de deglutir homens e mulheres, digerindo com suas engrenagens policial-burocráticas (o caso do presídio e a perseguição que os agentes do Estado fazem com a garota, um tema constante em Chaplin, como observamos ainda em O Garoto – The Kid, de 1921).

 

Além disso, existem outras engrenagens sutis que dilaceram as personas do capital em suas rotinas cotidianas (o próprio capitalista, o único que tem voz imperativa no filme, é meramente uma persona do capital, preso em suas engrenagens de valorização). Enfim, o sistema de máquinas parece “engolir” (e dilacerar) a todos.

 

 

 

Outra atitude desastrada do industrial workers ocorre quando ele vai trabalhar no estaleiro naval, após sair do hospital psiquiátrico. O processo de trabalho da indústria naval, apesar de assumir a forma capitalista, ainda é predominantemente artesanal, exigindo dos operários certas habilidades perceptivas dispensáveis na linha de montagem.

 

Por exemplo, o operário da indústria taylorista-fordista executa apenas uma operação rotineira e monótona, manipulando, no decorre da jornada de trabalho, objetos que são abstrações, meros componentes de uma mercadoria complexa, parcelizada em elementos padrões. A ferramenta e seu obejto de manipulação é especializada, não exigindo do operário habilidades mentais complexas. Na indústria naval, onde não existia uma linha de montagem, a lógica da produção de mercadorias assume ainda uma base artesanal. A tragédia (e o desastre) do industrial worker de Chaplin é que ele não consegue distinguir lógicas desigual, apesar de combinadas, da produção capitalista. Ao não discernir que uma trava de madeira pode cumprir funções múltiplas no processo de trabalho, ele confunde a lógica do trabalho fordista-taylorista com a lógica artesanal.

 

Tempos Modernos, de Charles Chaplin, herda a tradição crítica da modernidade fordista-taylorista de A Nous la liberté, de René Clair, de 1931. Inclusive, diz-se que Chaplin se inspirou em Clair para escrever seu Tempos Modernos. Na década de 1930, década de grande depressão e de inovações capitalista profundas na produção e no processo de trabalho, o avanço do fordismo, objeto de crítica de Clair e de Chaplin, representava o avanço de uma modernidade catastrófica, que tinha seu lado perverso na agudização das contradições sociais, da luta de classes e da geopolítica imperialista (o que veríamos traduzida na II Guerra Mundial). Tanto Chaplin quanto Clair traduziam em seus filmes a critica da racionalização do mundo, intrínseca ao avanço do capitalismo monopolista, e a afirmação dos valores da vida simples em harmonia com a Natureza e com o ethos comunitário (algo que o capital não poderia mais proporcionar).

 

 

 

Bibliografia Básica

 

Trabalho e Tecnologia – Dicionário Crítico, de Antonio David Cattani, Verbete Fordismo e Pós-Fordismo (Editora Vozes, 1999).

Trabalho e Capital Monopolista, de Harry Braverman (Editora Zahar, 1985)

O Capital – Crítica da Economia Política, de Karl Marx, Volume 1, Seção V (Editora Abril, 1998)

"Americanismo e Fordismo", de Antonio Gramsci (In Caderno do Cárcere).

 

Observações

 

 Outra análise do filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin, pode ser lida na Revista Tela Crítica, no.1, 2004, no artigo homonimo, de autoria de Marco Santana.

 

 Uma análise exaustiva do filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin, encontra-se no CD-ROM Tempos Modernos - Uma Análise do Filme (Editora Praxis, 2004), de autoria de Giovanni Alves.

 

 

Giovanni Alves (2005)

 

   

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